quinta-feira, 1 de maio de 2008

A PRIMEIRA ESCOLA I

Num dia aguardado à algum tempo com ansiedade, a minha mãe pegou-me pela mão e ensinou-me o caminho para a escola. Com algum sacrifício, os meus pais optaram por me matricular numa escola particular da terra. Fui o primeiro a chegar e de imediato apresentado àquela que seria a minha professora primária durante quatro anos. Chamava-se D. Bia e marcou de forma firme e segura o meu futuro.
Era uma escola diferente, onde na mesma sala de aulas estavam alunos da 1.ª até à 4.ª classe, o que nos permitia ir aprendendo matérias de anos futuros com a mesma facilidade com que aprendíamos as nossas.
A seguir a mim chegou o João Luís, aluno já da 3.ª classe mas que de imediato se sentou junto a mim e ajudou a fazer o primeiro exercício da minha vida académica: encher a primeira folha do caderno com a letra "a". Era mesmo assim, não havia aulas de apresentação ou de adaptação, era chegar e começar de imediato a aprender o principio da escrita.
Quando chegou a hora do almoço já fui sozinho para casa e sozinho regressei à escola nessa tarde. E assim foi até terminar a 4ª classe.
Eram outros tempos, mas não me lembro de ver os pais ou os avós irem buscar os miúdos à saída escola, nem com chuva, nem com sol. A partir do primeiro dia de aulas ganhávamos uma certa independência como se tivéssemos subido um patamar na escala da vida. Estávamos a caminhar para homenzinhos.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O PRINCIPIO

No principio éramos dois, eu e o Zé Manel, heróis solitários das nossas brincadeiras, no universo limitado da nossa travessa. Éramos inseparáveis, como irmãos, sempre na vista um do outro, sempre na casa um do outro. Éramos os dois da mesma idade, filhos únicos, e únicos miúdos da travessa que era "dos lagares" e a única da vila que tinha uma passagem superior, em arco, que ligava o primeiro andar do meu prédio ao quintal anexo. Tenho a sensação que era um mundo diferente, pois na altura duas crianças da mais tenra idade tinham a liberdade de viver o exterior como uma extensão das casas. A travessa fazia parte das nossas casas como uma continuação dos nossos quintais. As portas estavam sempre abertas e nós aproveitávamos essa liberdade entrando casas adentro como novos territórios conquistados.
Não sei se haveria na terra companheiros tão completos como nós. Quando acordávamos a primeira coisa que fazíamos era ir ter um a casa do outro. Separávamo-nos para almoçar e de seguida lá corríamos outra vez para mais brincadeiras e aventuras. O lanche já era na maioria das vezes partilhado na casa de um, e era novas brincadeiras até ao jantar.
Fomos dois durante algum tempo, pouco anos, porque entretanto surgiu uma nova companheira de brincadeiras naquele mundo tão limitado. Chamava-se Maria Emília e tinha ido viver com os avós porque os pais foram procurar outras fortunas nas terras para lá dos Pirenéus. Foi uma companheira para novas brincadeiras, um desafio para quem estava habituado à monotonia de aventuras já vividas e repetidas. Foi uma pequena revolução no nosso limitado mundo. A Maria Emília era uma criança diferente de nós, mais enérgica e destemida, sem conseguir muitas vezes cumprir o curso normal das brincadeiras, inventando sempre novos desafios e reinventado opções por vezes absurdas e loucas. As vizinhas da travessa diziam que ela tinha "bichos carpinteiros" no rabo e que não conseguia estar um segundo quieta. Era de certa forma verdade, pois conseguia desgastar-nos no seu delírio de movimentos e corridas e histórias e tudo o mais que se lembrava.
Fomos assim três durante algum tempo, mas o nosso mundo estava-se ainda a formar, e a Maria Emília partiu. Foi ter com os pais, já estabelecidos nas novas terras. Voltei a vê-la por meia dúzia de vezes nos anos seguintes, e depois desapareceu completamente.
O Zé continuou a ser o meu melhor amigo ainda durante muitos anos, até que na nossa juventude as opções nos levaram a alguma distância. Continuo a considerá-lo o grande amigo que ficou algures no meu passado, e ainda hoje, quando nos encontramos, não deixo de sentir nostalgia pelo mundo que representávamos e que algures deixámos perder.

segunda-feira, 31 de março de 2008

LEMBRO-ME

A mais antiga memória que tenho da minha infância é na cozinha da minha casa, sentado ao colo da minha mãe e junto da minha avó. Não sei precisar a data aproximada desta memória, mas sei que é muito longe na minha infância. As outras recordações que vou conseguindo visualizar são todas dispersas e confusas no espaço de tempo que foi a infância até aos meus 4 ou 5 anos. No entanto consigo lembrar-me de muitas coisas, e quando esforço mais um pouco, consigo retirar dos arquivos algumas que surpreendem até a mim próprio pelos pormenores que trazem, pelos momentos de ternura que ressurgem a cada uma delas, pelo relembrar daquilo que é impossível reviver.
Como os meus pais eram ambos trabalhadores, fui criado durante toda a minha infância por uma ama muito especial, a minha avó. Nunca conheci os meus avôs, uma vez que ambos faleceram antes do meu nascimento. Tinha no entanto vivas as minhas duas avós. Da minha avó materna tenho poucas e fracas recordações, não me lembro sequer de ter recebido qualquer prova de carinho ou afecto da sua pessoa. Só conheci assim uma avó no sentido afectuoso do termo, a minha avó paterna. Era para mim o centro do meu universo ainda limitado. Era ela a quem recorria nos momentos de aflição, que me satisfazia todas as vontades e caprichos, que me deixou a pouco e pouco ir conhecendo o mundo à minha volta, que me deixou ir crescendo devagar à espera todos os dias da chegada dos meus pais no final da tarde.
Lembro-me de ir com ela às compras certo dia porque fiz uma birra que queria comer pão com manteiga corada, e apesar de todos os seus esforços para me explicar que a dita manteiga era resultado da fritura da carne com pimentão, eu, irredutível, não me convenci, e ela viu-se na obrigação de ir à pressa conseguir os ingredientes para que eu ao lanche lá comesse o pão com a manteiga corada.
Lembro-me de me sentar à janela do quarto dos meus pais com as pernas penduradas para a rua e a minha avó a segurar-me para não cair. Foi assim que vi passar os meus primeiros carros na Rua Direita, foi assim que vi o "Tonica" chegar da tropa, ainda fardado, tinha sido dispensado por ser aleijado dos pés e não conseguir acompanhar os colegas durante as marchas.
Lembro-me da minha avó cair nas escadas que davam para o quintal e fracturar o osso da bacia, foi uma tragédia para a altura, e penso que foi a primeira vez que me separei dela. Lembro-me de a ir visitar ao Sanatório do Outão, onde esteve internada.
Voltou para a minha infância e eu tinha novamente avó, até que um dia em que estava a brincar na rua me chamaram com uma noticia alarmante "a tua avó está doente". Sentira-se mal na viagem de regresso de Almada onde tinha ido visitar os meus tios, e encontrei-a deitada na minha cama já acompanhada pelo médico. Morreu ainda nessa noite e foi sepultada num Domingo de Feira de Maio. Eu perdi a minha avó e perdi uma parte do meu mundo.
Da minha avó tenho a memória da pessoa, mas não do nome. Penso que se chamava Joaquina, mas não tenho a certeza. Certeza tenho que era a minha "AVÓ", e esse nome chegava.

sábado, 15 de março de 2008

LARGO DE MEMÓRIAS

Já lá vão muitos anos, mais de três décadas passadas, que no fundo das minhas memórias ficou o Largo do Correio. É hoje um espaço de ilusão, de quase magia, que me faz recuar a uma época de aventuras e brincadeiras, de amigos a sério, amigos irmãos, primeiros amigos que foram ficando semeados no tempo, e que de tempos a tempos voltam das recordações, voltam da névoa que se foi formando com os anos.
O Largo do Correio é também um espaço muito real, que já com outro nome "da Liberdade", está ali, no cimo da Rua Verde, encostado ao berço de S. João de Deus, na velhinha vila e agora nova cidade de Montemor-o-Novo.
Chamava-se assim "do Correio" por em tempos ter ali existido o Posto dos Correios, assim como quase todas as repartições públicas da vila de então. Mas esse já não é o meu tempo. No meu tempo o Largo do Correio era insólito campo de futebol empedrado com um bebedouro de pedra a assinalar o meio do campo, era um quartel general para todas as brincadeiras, era um ponto de encontro e de partida para todas as aventuras, era o mundo com que muitos continuamos a sonhar.
Hoje, já entrados num novo século, num novo milénio, é um largo diferente, vazio das brincadeiras e dos jogos de outrora, vazio de crianças, quase vazio de vida.
Hoje é simplesmente um largo de memórias.