A mais antiga memória que tenho da minha infância é na cozinha da minha casa, sentado ao colo da minha mãe e junto da minha avó. Não sei precisar a data aproximada desta memória, mas sei que é muito longe na minha infância. As outras recordações que vou conseguindo visualizar são todas dispersas e confusas no espaço de tempo que foi a infância até aos meus 4 ou 5 anos. No entanto consigo lembrar-me de muitas coisas, e quando esforço mais um pouco, consigo retirar dos arquivos algumas que surpreendem até a mim próprio pelos pormenores que trazem, pelos momentos de ternura que ressurgem a cada uma delas, pelo relembrar daquilo que é impossível reviver.
Como os meus pais eram ambos trabalhadores, fui criado durante toda a minha infância por uma ama muito especial, a minha avó. Nunca conheci os meus avôs, uma vez que ambos faleceram antes do meu nascimento. Tinha no entanto vivas as minhas duas avós. Da minha avó materna tenho poucas e fracas recordações, não me lembro sequer de ter recebido qualquer prova de carinho ou afecto da sua pessoa. Só conheci assim uma avó no sentido afectuoso do termo, a minha avó paterna. Era para mim o centro do meu universo ainda limitado. Era ela a quem recorria nos momentos de aflição, que me satisfazia todas as vontades e caprichos, que me deixou a pouco e pouco ir conhecendo o mundo à minha volta, que me deixou ir crescendo devagar à espera todos os dias da chegada dos meus pais no final da tarde.
Lembro-me de ir com ela às compras certo dia porque fiz uma birra que queria comer pão com manteiga corada, e apesar de todos os seus esforços para me explicar que a dita manteiga era resultado da fritura da carne com pimentão, eu, irredutível, não me convenci, e ela viu-se na obrigação de ir à pressa conseguir os ingredientes para que eu ao lanche lá comesse o pão com a manteiga corada.
Lembro-me de me sentar à janela do quarto dos meus pais com as pernas penduradas para a rua e a minha avó a segurar-me para não cair. Foi assim que vi passar os meus primeiros carros na Rua Direita, foi assim que vi o "Tonica" chegar da tropa, ainda fardado, tinha sido dispensado por ser aleijado dos pés e não conseguir acompanhar os colegas durante as marchas.
Lembro-me da minha avó cair nas escadas que davam para o quintal e fracturar o osso da bacia, foi uma tragédia para a altura, e penso que foi a primeira vez que me separei dela. Lembro-me de a ir visitar ao Sanatório do Outão, onde esteve internada.
Voltou para a minha infância e eu tinha novamente avó, até que um dia em que estava a brincar na rua me chamaram com uma noticia alarmante "a tua avó está doente". Sentira-se mal na viagem de regresso de Almada onde tinha ido visitar os meus tios, e encontrei-a deitada na minha cama já acompanhada pelo médico. Morreu ainda nessa noite e foi sepultada num Domingo de Feira de Maio. Eu perdi a minha avó e perdi uma parte do meu mundo.
Da minha avó tenho a memória da pessoa, mas não do nome. Penso que se chamava Joaquina, mas não tenho a certeza. Certeza tenho que era a minha "AVÓ", e esse nome chegava.
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1 comentário:
Pois é, as avós ficaram na nossa memória e o seu mundo acabou por fazer parte da nossa identidade, apesar do inevitável conflito de gerações...
Ezul
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