No principio éramos dois, eu e o Zé Manel, heróis solitários das nossas brincadeiras, no universo limitado da nossa travessa. Éramos inseparáveis, como irmãos, sempre na vista um do outro, sempre na casa um do outro. Éramos os dois da mesma idade, filhos únicos, e únicos miúdos da travessa que era "dos lagares" e a única da vila que tinha uma passagem superior, em arco, que ligava o primeiro andar do meu prédio ao quintal anexo. Tenho a sensação que era um mundo diferente, pois na altura duas crianças da mais tenra idade tinham a liberdade de viver o exterior como uma extensão das casas. A travessa fazia parte das nossas casas como uma continuação dos nossos quintais. As portas estavam sempre abertas e nós aproveitávamos essa liberdade entrando casas adentro como novos territórios conquistados.
Não sei se haveria na terra companheiros tão completos como nós. Quando acordávamos a primeira coisa que fazíamos era ir ter um a casa do outro. Separávamo-nos para almoçar e de seguida lá corríamos outra vez para mais brincadeiras e aventuras. O lanche já era na maioria das vezes partilhado na casa de um, e era novas brincadeiras até ao jantar.
Fomos dois durante algum tempo, pouco anos, porque entretanto surgiu uma nova companheira de brincadeiras naquele mundo tão limitado. Chamava-se Maria Emília e tinha ido viver com os avós porque os pais foram procurar outras fortunas nas terras para lá dos Pirenéus. Foi uma companheira para novas brincadeiras, um desafio para quem estava habituado à monotonia de aventuras já vividas e repetidas. Foi uma pequena revolução no nosso limitado mundo. A Maria Emília era uma criança diferente de nós, mais enérgica e destemida, sem conseguir muitas vezes cumprir o curso normal das brincadeiras, inventando sempre novos desafios e reinventado opções por vezes absurdas e loucas. As vizinhas da travessa diziam que ela tinha "bichos carpinteiros" no rabo e que não conseguia estar um segundo quieta. Era de certa forma verdade, pois conseguia desgastar-nos no seu delírio de movimentos e corridas e histórias e tudo o mais que se lembrava.
Fomos assim três durante algum tempo, mas o nosso mundo estava-se ainda a formar, e a Maria Emília partiu. Foi ter com os pais, já estabelecidos nas novas terras. Voltei a vê-la por meia dúzia de vezes nos anos seguintes, e depois desapareceu completamente.
O Zé continuou a ser o meu melhor amigo ainda durante muitos anos, até que na nossa juventude as opções nos levaram a alguma distância. Continuo a considerá-lo o grande amigo que ficou algures no meu passado, e ainda hoje, quando nos encontramos, não deixo de sentir nostalgia pelo mundo que representávamos e que algures deixámos perder.
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